Na temporada transata, o Santa Clara foi a principal surpresa no campeonato nacional. A máquina operada por Vasco Matos causou múltiplos transtornos aos adversários que apanhou pela frente, fruto da qualidade dos seus intervenientes e da verticalidade aplicada.

Todavia, a avalanche ofensiva está longe de estar presente na época atual, com os bravos açorianos a mostrarem claras dificuldades em encontrar o fundo das redes nestes arranque de campanha. Nos últimos cinco compromissos, a turma de Ponta Delgada anotou, apenas, um golo - na receção ao Shamrock Rovers.

Na passada sexta-feira, num duelo decisivo para a qualificação para a Conference League, o ataque voltou a não acompanhar a notória coesão defensiva. Surge então a dúvida: quais são os problemas dos insulares no eixo mais adiantado? Nada tema, o zerozero foi à procura da resposta.

O rendimento irregular de Gabriel Silva

Gabriel Silva integra o lote de jogadores com mais apetrechos técnicos no plantel dos bravos açorianos. Para além disso, o atleta de 23 anos também possui radar de matador, tendo apontado sete preciosos tentos ao longo da temporada 2023/24.

@Kapta+

Todavia, o brilhantismo do camisola '11' tem demorado a aparecer na presente época, com as últimas exibições a ficarem pautadas por uma certa irregularidade. Se na deslocação ao terreno do Larne, o jovem extremo apresentou-se em grande plano, com duas finalizações certeiras e uma assistência, o mesmo não se pode dizer das partidas que se sucederam.

O Santa Clara é dependente dos recortes individuais do brasileiro, que rapidamente consegue mudar o rumo dos acontecimentos com um remate preciso ou com um cruzamento milimétrico. No entanto, essas ações luminosas têm aparecido de longe a longe, fenómeno que levou Vasco Matos a atirar o atacante para o banco de suplentes na mais recente aparição.

Ritmo lento e ligações previsíveis

Na construção, o Santa Clara tem optado (quase) sempre por um ritmo mais pautado, mais cerebral, com Serginho a ser o pêndulo da equipa na transição defesa-ataque. O jogador oriundo de Guimarães gosta de gerir os ritmos de jogo a seu tempo, numa posição ligeiramente mais recuada, algo que executa de forma exímia. Contudo, falta-lhe um parceiro com outras características.

@Manuel Morais / Kapta+

Adriano Firmino foi o elemento indicado para acompanhar o camisola '35' no miolo ao longo da eliminatória. Apesar do meio-campista brasileiro oferecer garantias muito positivas no capítulo físico e de recuperação do esférico, o respetivo futebolista pouco garante no momento da criação. A dupla não tem conseguido pisar zonas mais adiantadas no terreno para, posteriormente, servir os companheiros do ataque.

Os passes e as movimentações são previsíveis, fáceis de serem lidas pelo adversário. No Tallaght, foram poucas as vezes em que o esquadrão luso conseguiu acelerar o jogo através de variações rápidas de flanco. A falta de um médio com altas aptidões na condução pode ser fatal, ainda para mais num esquema que apenas contempla dois jogadores numa posição central do meio campo. Veremos se um futebolista com este tipo de perfil irá integrar as fileiras insulares até ao desfecho do mercado.

Wendell Silva, o corpo estranho da frente

No confronto realizado em Dublin, Wendell Silva foi um autêntico corpo estranho. O ex-FC Porto B não conseguiu dar profundidade à equipa com movimentos de rotura, nem conseguiu evidenciar-se num eventual jogo de pivot, de costas voltadas para a baliza contrária. Desaparecido em combate, a entrada de Gabriel Silva, um jogador mais versátil, revitalizou o coletivo.

@Miguel Cardoso / Kapta+

O possante ponta de lança não parece estar talhado, até ao momento, para o sistema pensado por Vasco Matos. A respetiva função exige um atacante mais dinâmico, capaz de baixar ligeiramente no terreno para fazer a ligação com os corredores. O atleta de 25 anos é um jogador de área, matador dentro do perímetro de fogo, mas necessita de colegas que consigam chegar com regularidade ao último terço, algo que não tem acontecido.

João Costa, por outro lado, é mais associativo, porém, falta-lhe a veia goleadora do avançado brasileiro. O antigo jogador do FC Alverca precisa de ir ativando, gradualmente, o seu faro, de forma a ser uma opção ainda mais viável para Vasco Matos, que necessita urgentemente de uma renovação das peças ao seu dispor para alterar o atual paradigma.

Wildcard Ricardinho foi habitar no México

Na campanha transata, o Santa Clara contou, em múltiplas ocasiões, com um wildcard, um jogador que saltava do banco para aumentar as doses de criatividade da equipa. Ora, Ricardinho assumiu esse papel com maestria durante grande parte da temporada.

@Rogério Ferreira / Kapta+

O pequeno agitador, dotado de uma capacidade técnica acima da média, conseguia desbloquear partidas com um mero lance de inspiração. A sua facilidade na finalização rendeu sete golos aos insulares, muitos deles essenciais para as contas da distribuição pontual. No entanto, a saída do criativo para o Juárez, do México, deixou um vazio difícil de preencher.

Ainda nenhum dos ativos atuais provou ter essa habilidade particular, fundamental em jogos de maior aperto. Elias Manoel, cedido pelo Botafogo no presente defeso, poderá ser essa arma secreta. Esperar para ver quais são as intenções do técnico de 44 anos para o novo pupilo. Uma coisa é certa.. seria ótimo para o emblema de Ponta Delgada se conseguisse ajudar a contrariar rapidamente o registo atual.