
Empunhando cartazes com críticas a Donald Trump, Elon Musk, o partido republicano e as medidas da nova administração, os manifestantes espalharam-se no sábado por várias zonas da cidade, com eventos "Hands Off" -- o nome do protesto nacional -- na baixa de Los Angeles, Glendale, Malibu, Los Feliz e Pasadena.
Silvia Anita gritou palavras de ordem segurando um cartaz onde se lia: "Isto não é um teste. Isto é real. Isto é um golpe".
"O que está a acontecer é chocante e horrível", disse a mulher de meia-idade à Lusa. "Não podemos deixar que a democracia nos seja roubada debaixo do próprio nariz", continuou.
Anita contou que o pai foi um veterano do exército norte-americano que lutou na II Guerra Mundial e considerou que o país ainda tem a responsabilidade de proteger a democracia global.
"Sou contra a forma como estão a tratar imigrantes, a tirar acesso à imprensa, a dar cabo de instituições e a fechar o Departamento de Educação", explicou.
Anita criticou ainda a nomeação de Robert Kennedy Junior para Secretário da Saúde, que descreveu como "sem qualquer conhecimento", e disse que Elon Musk, que está à frente do Departamento de Eficiência Governativa "não tem qualquer empatia pelas pessoas".
Tal como muitos dos manifestantes em Pasadena, Silvia Anita usou máscara, chapéu e óculos de sol para ser menos reconhecível, por medo de retaliação.
"Nunca pensei ter de fazer isto neste país. Nunca pensei que este dia chegaria. Mas o dia chegou e as pessoas têm de acordar", sublinhou.
Entre os milhares de pessoas que encheram a Colorado Avenue -- mulheres, homens, crianças, jovens e idosos -- esteve a congressista democrata Judy Chu, que representa o 28º distrito da Califórnia na Câmara dos Representantes.
"A agenda que está a ser empurrada pelos republicanos no Congresso, alinhada com a administração Trump-Musk, está a colocar milhões de americanos em risco", afirmou, empunhando um altifalante de mão. "Estão a tentar acabar com acesso à saúde para as pessoas que mais precisam para financiar cortes fiscais para os ultra ricos", acusou.
A classe milionária, os magnatas da tecnologia como Elon Musk estiveram entre os maiores alvos dos manifestantes. Um deles tinha um cartaz que dizia "As únicas minorias perigosas neste país são os bilionários"; outro pedia a "Separação entre Musk e o Estado" e vários exigiam "Deportem Musk" e "Boicotem a Tesla".
O tema do protesto, "Hands Off" ('tirem as mãos'), refere-se à insatisfação de muitos cidadãos com o que consideram ser abusos de autoridade na extinção de departamentos, cortes a programas sociais, direitos legais e benefícios como Segurança Social e Medicaid para os mais velhos.
Um idoso, cujo cartaz criticava as taxas aduaneiras impostas por Donald Trump e as consequências para os mercados, mostrou-se indignado.
"O Presidente não tem a educação, moralidade ou maturidade emocional para estar no cargo, tal como demonstrado pela violação das regras do Estado de direito e pelo prejuízo à economia", disse à Lusa Dana Ostenson. "As tarifas são uma ideia terrível, mas o pior é o desrespeito pelas leis".
Ostenson lembrou que, nos anos 70, foram os republicanos no Congresso que destituíram o Presidente Richard Nixon, caído em desgraça, mas lamentou que esta versão do partido parece incapaz de fazer o mesmo.
"Estava a falar com um amigo advogado e realmente a última vez que vimos protestos desta magnitude foi durante a guerra do Vietname", afirmou.
Várias pessoas exibiam bandeiras norte-americanas penduradas de cabeça para baixo e uma delas explicou que tal é feito em sinal de "aflição e emergência". Uma mota circulava tocando a música de Ice Cube "Arrest the President" ('Prendam o Presidente') e numa bicicleta, um cidadão desfraldava a bandeira usando uma t-shirt que dizia "Lutando contra o fascismo".
Os carros que passavam ao lado da marcha de protesto apitavam de forma continuada, o que era recebido de forma efusiva pelos manifestantes nos passeios da Colorado Avenue.
Foi aí que Selena, 37 anos, disse à Lusa que está preocupada com o efeito de distração que as ações mais bombásticas têm, desviando a atenção do que está realmente a ser feito nos bastidores.
"É tão incendiário, todos os dias acontece qualquer coisa. Mas isso distrai do que está a ser feito a nível mais granular", considerou.
Selena trabalha em pesquisa e recolha de dados e está muito alarmada com a eliminação de bases de dados inteiras dos serviços públicos. "Há dados que estão a desaparecer e a ser modificados e não nos explicam como o fizeram", apontou. "É por isso que temos de continuar a estar vigilantes e a prestar atenção".
Os protestos em Los Angeles juntaram-se a outros 1.400 a nível nacional, incluindo nas maiores cidades do país.
Imagens aéreas mostraram multidões e muitos políticos democratas, incluindo Cory Boker -- o senador que quebrou o recorde com um discurso de 25 horas a criticar Trump -- falaram aos manifestantes.
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