O caminho para as eleições presidenciais de 2016 nos Estados Unidos foi assombrado pelas suspeitas de interferência de Moscovo. Barack Obama, o inquilino cessante da Casa Branca, avisou: “Não nos façam isso a nós, porque nós podemos fazer-vos coisas a vocês.” A mensagem era dirigida a Vladimir Putin, suspeito de autorizar ciberataques ao Partido Democrático e condicionar o sufrágio a favor de Donald Trump. A histórica tensão e o posicionamento divergente em vários assuntos tornaram os encontros presenciais entre Obama e Putin um deserto de sorrisos.

Por muito que a diplomacia seja um jogo de complexas cedências, os entendimentos podem ser estabelecidos por vias mais simples. “Como residente de Washington DC, continuo a beneficiar das contribuições dos russos, especificamente, de Alexander Ovechkin. Estamos muito satisfeitos por tê-lo em Washington DC.” Logo nos primeiros meses de governação, Barack Obama mostrou apreço para com um assumido putinista tão admirado em Moscovo como na capital dos Estados Unidos.

Sasha Mordovets

Alexander Ovechkin chegou à NHL, liga norte-americana de hóquei, em 2005. Desde aí, marcou 894 golos e alcançou o recorde de Wayne Gretzky. Na vitória dos Capitals contra os Blackhawks, chegou ao fim o período de 20 anos que demorou até consegui-lo. O disco foi ter com o seu posicionamento descaído para a esquerda e Ovi rapou-o para a baliza. Foi imediata a estridente reação. Um barulho ensurdecedor instalou-se como se alguém tivesse ligado a buzina de um camião às colunas da Capital One Arena por Bluetooth.

Um foco de luz seguiu o zarpar de Ovechkin. A barba grisalha a maturar há 39 anos fugia do capacete. Acenou, triunfante, para a bancada, onde a família testemunhava o feito. Nastya Ovechkina aplaudia o marido num camarote superior. Foi a modelo que partilhou no Instagram o conjunto o serviço de chá que Vladimir Putin ofereceu ao casal a propósito da celebração matrimonial.

Alexander Ovechkin e o presidente russo mantêm uma relação de proximidade. Em 2017, o três vezes MVP da NHL (2008, 2009 e 2013) criou a “Putin Team”, um movimento de apoio à reeleição do líder do Kremlin no sufrágio do ano seguinte. “Eu só apoio o meu presidente e o meu país, porque sou de lá. Se pessoas dos Estados Unidos fossem para a Rússia, elas importar-se-iam com o que acontece nos Estados Unidos. Eu importo-me com o que acontece na Rússia, porque é a minha casa e é de lá que eu sou”, disse na altura da fundação.

No mesmo ano em que Putin preservou o lugar num ato eleitoral condicionado, segundo a “Human Rights Watch”, por “medidas repressivas para desencorajar a oposição política”, Alexander Ovechkin sagrou-se campeão da NHL. Os Washington Capitals, como é tradicional no desporto norte-americano, levaram a Stanley Cup à Casa Branca, entretanto albergue de Donald Trump. Alguns elementos das equipas recusaram-se a fazer a visita. Braden Holtby, por exemplo, justificou-se com a vontade de se “manter fiel” aos seus valores.

Alex Wong

A “verdadeira superestrela”, epíteto que Alexander Ovechkin recebeu nessa altura por parte do presidente norte-americano, foi um dos que se deslocou até à atolada Sala Oval. Anos mais tarde, aquela mesma divisão foi visitada por Volodymyr Zelensky, presidente da Ucrânia.

No segundo mandato, que começou em janeiro de 2025, Donald Trump tentou usar o hóquei no gelo como arma política. “Vou telefonar à grande equipa norte-americana de hóquei para os incentivar para a vitória contra o Canadá”, país que perspetiva que se torne no “querido e muito importante 51.º estado”. A final do Torneio das Quatro Nações, entre os jogadores dos Estados Unidos e do Canadá a atuarem na NHL, foi incendiada por esta narrativa. Os canadianos venceram por 3-2 (após prolongamento).