Priiiim!, tocava o analógico despertador do antigamente aos 12 minutos, houvesse ainda um tempo de esticar o braço, dar uma palmada no teto do relógio na mesa de cabeceira e mandá-lo calar, a sapatada de Geny Catamo à entrada da área, descaído um coche para a direita, teria dado o alarme para resgatar o jogo da sua molenga. Até ao moçambicano apanhar a sobra de um canto, puxar a culatra atrás do seu pé esquerdo e rematar para golo, a partida era uma coleção de bastante bola lenta e insonsa nos pés do Sporting, esfaimada por tempero nos passes, vários deles falhados. Era uma sonolência sobre o verde.

A antítese do que o futebol costuma proporcionar, teve de ser o golo marcado e não um sofrido a causar um certo chinfrim no encontro. Impulsionado pelo jeito peculiar de Geny em ser lesto, efetivo e espontâneo a armar o gesto do remate e com facilidade acertar com uma bola na baliza, o Sporting acelerou o ritmo. Olhou mais para a frente no passe, os jogadores pareceram mais ligados a reagirem à perda de bola e os três centrais mais decididos a usufruir da falta de pressão, pisando bem dentro do meio-campo do Rio Ave quando a equipa estava em posse. De remates, nada, de perigo tão pouco, mas houve um intento renovado, uma fatia de vontade coletiva em não sucumbir à indolência.

Essa fase refrescada de uma equipa ligada à corrente, a tentar algo mais do que o médio Debast abrir por fora de St. Juste, o central da esquerda, para pegar na construção das jogadas e Catamo, o extremo, colar-se à linha para Maxi Araújo, o ala, se desmarcar pelo centro, só durou uns 10 minutos. Reapareceu a pachorrenta cara do Sporting vista amiúde nos últimos tempos, o Sporting da lenta cautela no passe, das unidades estáticas e a distâncias demasiados para promover combinações (a ilha que é Trincão) além da pré-predefinida, e preferida, em lançar o galope de Viktor Gyökeres no espaço contra algum desgraçado adversário.

Chegou a haver um, sempre o há, na ressaca de um canto em que o sueco bailador a alta velocidade empurrou Omar Richards contra a área, a aflição ceifou-se os próprios pés e só uma intervenção no último segundo de João Tomé impediu o remate. Nada mais de jogadas de gestação própria criariam os leões, satisfeitos a gerir em baixas rotações uma partida que dominavam sem irem à jugular do adversário, incapazes de o estriparem com o jogo que geravam.

Gualter Fatia

Só o conseguiam no jogo que impediam: por duas vezes e a pressionar alto sobre a saída de bola, o Sporting armou-se em ladrão perto da área, retirando dividendos da ousadia guardada para tais momentos. O primeiro veio do descuido de Richards, na esquerda, em tentar um previsível passe para um dos médios, intercetado para Trincão logo passar um Gyökeres feito ilha no meio da área, sozinho e estranho, porque com uma imensidão de tempo não quis decidir no primeiro toque, esperou por um adversário para o fintar e o remate depois sair frouxo, contra a defesa de Cezary Miszta. A segunda vez foi diferente.

Querendo o guarda-redes polaco sair a jogar curto, o seu passe encontrou a teia de Morten Hjulmand, tecelão de roubos e interceções, que reciclou a bola para Geny, à esquerda. O moçambicano pôs a fintar e, na área, quase a despistar-se em si mesmo, ainda se antecipou a um quase corte de Aguilera. Foi penálti, era uma hipótese de Gyökeres se encontrar. E o sueco nada quis com os seus costumes brutos, de tudo fazer com força. Já a primeira parte entrara nos descontos e ele fez do pé direito uma colher nunca viste nele, no Sporting - marcou à Panenka, escolhendo a mais iconoclasta forma de rematar a 11 metros da baliza.

Ao exercício de estética, no fundo ao estilo, recorreu o sueco para fazer o 43.º golo da temporada, igualando o registo deixado na anterior, mas em menos sete jogos. Tantas vezes uma locomotiva em fúria para levar a sua avante, movido a potência e pujança, Gyökeres espelhou-se nos números escolhendo o penálti de autor, inventado por quem o justificou como oriunda da vontade em dar “uma alegria aos espetadores, um espetáculo que proporcionasse temas de conversa nos bares”. Pois bem, muita tertúlia entre convivas irá motivar o sueco.

Não apenas pela inesperada ousadia dos 11 metros, também pela convergência dos seus métodos, mais adiante. A segunda parte reatou o jogo energicamente, com o Sporting cedo a desenhar uma jogada de área a área, transitando rápido, lançando Maxi na esquerda, onde o uruguaio cruzou para Gyökeres receber e ajeitar a bola para Trincão rematar de pé direito, sem acertar na baliza. O despertador mostrava-se, mas de pouca dura. Viria uma curta fase do Rio Ave a gozar de bola, ligando passes na metade contrária, Aguilera e João Graça a fazer mexer a letargia como só o fizera numa singela vez, aos 25’, até André Luiz disparar um senhor remate de André Luiz ao ir direita para o centro.

Eurasia Sport Images

Esse esgar de reação dos vila-condenses alarmou Viktor Gyökeres. Em pouco tempo, o indomável sueco mostrou-se no tipo de correrias em que o Sporting se tem esparramado, tanto que esmorece os ritmos dos seus jogos, recua linhas, empastela as suas ações, por confiar que do reator do seu avançado haverá energia de sobra, da dele, para sozinho desatar os nós que se encruzilhem.

Lá arrancou Gyökeres, pela esquerda, desmontando a bacia de João Tomé, caído na relva com o ziguezague do avançado antes de tirar um cruzamento. Depois, na esquerda, furiosamente zarpou contra um adversário, desviou a bola para a fisga direita e estourou remate tal, contra o poste, que o guardião Miszta olhou espantado para trás, mirando o sueco, quando o ricochete já levara a bola para longe. No progressivo abrandar da partida, vestindo o Sporting a sua capa de contrição, o seu abono metamorfoseava-se em despertador com pernas.

Carente no estimulo de combinações ofensivas variadas, só aqui e ali a ligar jogadores fora das suas posições no papel, o Sporting estancou sem problemas as inofensivas intenções do Rio Ave, mas, a atacar, limitou-se a fazer o suficiente quando não tinha as jogadas à medida de irem ter com o seu sueco. Numa raríssima combinação divergente, Trincão foi ao centro, pediu um passe, deu de primeira no apoio de Gyökeres, que fixou um defesa para isolar Geny e o deixar bisar. O VAR detetaria o fora de jogo que desmanchou a existência dessa extroversão no jogo leonino.

Eurasia Sport Images

Haveria remates de Trincão, outro do panzer em gestação que é Conrad Harder, mas nenhum equivalente, sequer em metade, na chinfrineira caótica provocada cada vez que Gyökeres tem bola para se embalar em corrida contra adversários. Ainda se viu o sueco esgueirar-se a três adversários área dentro, potente no corpo e esguio nos pés, chateado por não encerrar outra debandada sua com um golo - o remate saiu rente ao poste direito. Ficou a barafustar consigo próprio. E talvez com os derradeiros minutos do Sporting e a sua cadência que permitiu ao Rio Ave um assalto final à sua área, com vários cruzamentos.

Dizia Aitor Lagunas, fundador da revista batizada de “Panenka” por honra ao homem que teve a honra de entrevista, que o inventor do mais bonito dos penáltis cativa por esse génio ter brotado de “um tipo absolutamente comum”. Viktor Gyökeres abdicou da potência para lhe conceder a sua vénia. Em Portugal, e quando o Sporting se recolhe a uma certa banalidade no seu jogo, ele é o pináculo do incomum. Sobretudo por ele, o homem que leva 86 golos em 93 encontros, os leões poderiam levar para Paços de Ferreira - não em Vila do Conde, onde a tempestade desguarneceu o estádio do Rio Ave - uma vantagem mais generosa para os 90 minutos que os separam do Jamor.