
O Future of Jobs Report 2025 do World Economic Forum apresenta um cenário de grandes transformações no mercado de trabalho nos próximos anos. A Inteligência Artificial (IA), a automação e a transição verde são apontadas como os principais vetores de mudança. Contudo, enquanto os debates se concentram no futuro das profissões tecnológicas e digitais, surge uma questão essencial: quem garantirá o funcionamento da economia?
Esta é uma pergunta que me assola frequentemente, sobretudo como gestora de uma empresa ligada ao recrutamento e ao talento. Ouvimos falar diariamente das profissões do futuro, mas vejo — no presente — centenas de empresas com dificuldade em preencher funções críticas, que exigem presença física e competências práticas. A verdade é que o mundo continua a precisar de quem o mantenha em movimento, todos os dias.
Sectores como indústria, logística, cuidados de saúde, agricultura, construção e serviços essenciais continuam a ser a espinha dorsal de qualquer sociedade. Paradoxalmente, são também alguns dos mais impactados pelas mudanças previstas.
Automação e o desafio da escassez de mão de obra
O relatório destaca que as tecnologias emergentes — IA, robótica e automação — eliminarão milhões de postos de trabalho administrativos e repetitivos. Em contrapartida, funções que exigem presença física, como motoristas de entregas, operadores de máquinas e trabalhadores da construção, continuarão a registar elevada procura.
Temos de ter coragem para dizer o óbvio: o trabalho essencial é, muitas vezes, invisível. Enquanto sociedade, por vezes, desvalorizamos estas funções. E, agora, quando precisamos urgentemente de atrair novos profissionais para estas áreas, enfrentamos um problema de reputação que não se resolve apenas com tecnologia.
Existe um obstáculo crítico: a escassez de profissionais. Muitos países enfrentam o envelhecimento da população e uma diminuição do número de jovens interessados em carreiras tradicionalmente exigentes. O paradoxo é evidente: enquanto algumas funções desaparecem, outras persistem, mas corremos o risco de aumentarem as dificuldades para encontrarmos profissionais dispostos a ocupá-las.
A urgência da valorização dos trabalhadores essenciais
Nos últimos anos, especialmente após a pandemia, houve um reconhecimento renovado da importância do trabalho presencial e essencial. Mas será que essa valorização se tem refletido em melhores condições e salários?
Segundo o relatório, mais de metade dos empregadores prevê um aumento do orçamento dedicado a remunerações. No entanto, sem estratégias eficazes de atração e retenção de talento, sectores como a logística e indústria poderão enfrentar desafios ainda mais severos com a escassez de profissionais qualificados. A digitalização e a automação, quando bem aplicadas, podem ser poderosas aliadas. Em vez de substituir empregos, podem otimizar processos, aliviar tarefas físicas e tornar estas funções mais atrativas e eficientes. O desafio não reside na tecnologia em si, mas na forma como é implementada.
A requalificação como fator crítico
Outro ponto central do relatório é a necessidade urgente de requalificação. Até 2030, estima-se que 59% da força de trabalho global necessitará de formação adicional. No entanto, o foco tem recaído, sobretudo, em profissões digitais. E os profissionais da indústria e da logística? Quem está a prepará-los para este novo contexto? Se os investimentos em requalificação não forem direcionados para estes setores, o risco é evidente: um mercado de trabalho ainda mais polarizado, com uma elite altamente qualificada na tecnologia e um vasto contingente de trabalhadores sem acesso às competências necessárias para se manterem competitivos.
Como preparar o futuro?
O relatório sugere algumas direções estratégicas:
● Investimento na formação e qualificação específica para setores como logística e indústria;
● Melhoria das condições de trabalho para atrair novos talentos e garantir retenção de profissionais;
● Uso inteligente da tecnologia, não como um substituto do trabalho humano, mas como um complemento para aumentar a produtividade e melhorar as condições laborais.
As previsões são claras: haverá trabalho. O grande desafio será garantir que existam trabalhadores preparados para desempenhá-lo. Sem um esforço coordenado entre empresas, governos e instituições de ensino, os desafios do futuro do trabalho não serão apenas tecnológicos — serão estruturais e sociais.
Acredito que o futuro do trabalho exige mais do que inovação tecnológica — exige um novo contrato social. Um compromisso coletivo para não deixarmos ninguém para trás, para valorizarmos o contributo de quem faz, monta, entrega e cuida. Porque a economia não gira sozinha. Gira graças a pessoas reais, com nomes, rostos e histórias.
A tecnologia é poderosa, mas é nas mãos certas que ela faz a diferença. O verdadeiro futuro do trabalho não será decidido por algoritmos — será construído pelas pessoas que, todos os dias, mantêm o mundo a girar.