
Aparentemente, o wokismo, que ia controlar as nossas mentes e fazer de nós seres temerosos de pronunciar o verbo sem que a mão da inquisição moralista dos radicais de esquerda nos queimasse nas redes sociais, desmoronou-se. Sim, a frase está longa. Mas é isto: o wokismo acabou, com uma mera assinatura de marcador de Trump. Quem diz o wokismo diz o tal DEI (programa de recrutamento de diversidade e inclusão), a imposição da Teoria Crítica da Raça, o pânico de acordar vítima da cultura de cancelamento ou de ter cometido um crime de “apropriamento cultural”. Tudo o que se tinha agregado no albergue geral da “guerra cultural”.
A temida investida da turba moralista, elitista, ditatorial da esquerda progressista e que a direita populista trumpista está a substituir por um “wokismo de direita” (este termo foi recentemente apresentado pela revista “The Atlantic”). Wokismo que ― vamos ser sérios de uma vez por todas ― Portugal nunca vivenciou. A não ser no Twitter/X e em guerras de teclado e acusações esparsas: “Isso é wokismo!”, ou “não me deixo intimidar pela cultura de cancelamento”, ou “dizer isso não é aceitável”.
Uma ressalva: algumas coisas ditas “woke” já não são mesmo aceitáveis de se dizer. O que não tem nada que ver com ser woke. “É ter noção”, como se diz agora. Estamos enquadrados?
O wokismo, como muita coisa que degenerou, começou com boas intenções. Trump ― um milionário misógino condenado por abuso sexual ― convenceu parte de uma nação de que havia uma guerra contra os trabalhadores esquecidos e contra os homens brancos por parte das elites urbanas radicais do Partido Democrata. E se calhar, havia. Não nos termos em que ele dizia. E essa opressão fazia-se pela linguagem. Eliminar a linguagem, os pressupostos que essa linguagem implicava, por exemplo na questão dos direitos, foi o que bastou para Trump ganhar a “guerra cultural”.
Como muito do que está a acontecer nos EUA, não se vislumbrou qualquer #resistência. Nem nos afamados pronomes, nem nos direitos dos trans no desporto ou na polémica das casas de banho. Até Bernie Sanders, o “socialista democrata”, veio dizer que estava na hora de se largar a treta woke e virar de novo para as “pessoas comuns”. É que, sim, houve gente demonizada por usar um sombrero numa festa de tequila. Houve episódios absurdos em campus universitários ou ambientes urbanos “progressistas”.
Visto daqui, do ponto de vista de leitor de jornal, o wokismo parecia uma máquina descontrolada de destruir reputações. Um gatafunho de Trump silenciou todo aquele poder de obliterar pessoas. Bizarro. Falou-se muito do “wokismo” em Portugal. Não houve wokismo, nem cancelamentos ― pode alguém ter sido chateado por ser rasca, deduzo. Assim como o #MeToo não chegou aos Conselhos de Administração.
Na Grã-Bretanha, até a estátua de Churchill foi vandalizada por ser taxado de “racista e imperialista” (por outro lado, um “historiador” foi ao Tucker Carlson, figura sabuja MAGA, alegar que Churchill foi o verdadeiro vilão da II Guerra Mundial. Dá para tudo). Por cá, discretamente, houve quezílias com traduções de livros de escritoras afro-americanas. Se houve algum mártir, não me lembro.
Trump agarrou-se ao termo “bom senso” e pintou os democratas de alucinados, disposto a sacrificar os EUA aos direitos dos trans e dos imigrantes ilegais criminosos. Acabar com o wokismo era simplesmente “restabelecer a sensatez”. Quando assinou o decreto a impedir atletas trans de participar em eventos desportivos de mulheres, conseguiu ser visto como um “herói feminista”. No mínimo, uma ironia para um homem com o seu cadastro criminal e moral.
As grandes multinacionais capitalizaram em marketing a morte de George Floyd e os protestos subsequentes. Agora, atiraram-se desavergonhadamente a anular as políticas “woke” e de inclusão para agradar ao presidente. A administração pública viu-se na obrigação de eliminar todo o tipo de “conceitos woke”: abrangência muita lata, mas que incluía questões como “alterações climáticas” e dezenas de conceitos científicos. E colocou em causa bolsas de investigação que incluíssem termos como ― vá-se perceber ― “mulher”.
“Há um patriotismo forçado e isso é doutrinação.” Outra forma de wokismo, mas do outro lado da trincheira. O “excecionalismo americano” era um conceito aberto à interpretação individual. Para uns, era imposição do “imperialismo”, para outros, a tentativa benevolente de exportar “democracia e capitalismo”. Hoje, o discurso externo americano saca inevitavelmente da “guerra cultural”, que remete para o antiwokismo e essencialmente para a defesa dos valores ocidentais (cristãos).
Se espremermos a terminologia, tem como base a família tradicional, mas também a defesa do homem, mas é o homem branco ― aquele que até há dias vivia uma “crise de masculinidade” e que Trump “resgatou”. Ora, para quem esteve atento, estes são exatamente os valores que Putin defende há anos, nos discursos sobre “a decadência do Ocidente”. O wokismo, com os tais abusos idiotas e incompreensíveis destes últimos anos, afinal terá sido a barreira conceptual para que EUA e Rússia não tivessem exatamente o mesmo discurso ideológico de domínio do homem branco e “valores morais não decadentes”.
Nunca fui woke. Mas acho que a linguagem e a sociedade evoluem e os direitos humanos não são um asterisco. Mas isto que acabei de descrever, esta consonância discursiva, não pode ser um avanço nem uma vitória. É um retrocesso grunho. Podemos dizer que o woke morreu. O de esquerda. Agora, está aí outra coisa. Não sei se lhe querem chamar “woke de direita”. Acho curto.