Apesar da tendência de melhoria em relação ao número de utentes com médico de família, a curva inverteu-se nos primeiros meses do ano e o Governo de Luís Montenegro chega a fevereiro com menos pessoas cobertas: segundo dados do SNS, citados pelo “Jornal de Notícias”, há agora mais 36 mil utentes sem médico de família do que havia há um ano.

São hoje ainda 1,57 milhões de pessoas nesta situação, dificultando o objetivo definido por Luís Montenegro na última campanha eleitoral de atribuir um médico de família a cada utente até ao final de 2025. As eleições antecipadas marcadas para maio podem também ser um obstáculo acrescido.

As razões para o aumento de pessoas sem médico atribuído são várias, mas passam também pelo aumento do número de pessoas inscritas nos centros de saúde - mais 121 mil de fevereiro de 2024 a fevereiro de 2025. A isto acresce a saída de médicos, quer para a reforma quer para fora do SNS, que não tem sido inteiramente compensada pela entrada de novos profissionais.

Ao “Jornal de Notícias”, o presidente da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar queixa-se da instabilidade derivada da constante mudança de políticas, antes que as alterações tenham tempo de começar a funcionar e a dar frutos no terreno. "Em menos de 15 meses, mudámos tudo e mudámos vários conselhos de administração. Não há tempo para estabilizar e perceber se funciona. Quando nos estamos a adaptar, muda tudo", lamenta Nuno Jacinto.

A ministra da Saúde chegou a admitir, em novembro passado, que os concursos para a colocação de médicos de família nos centros de saúde não correram bem no ano passado, e prometeu mudanças para 2025, incluindo novas medidas para atrair médicos para os centros de saúde. Mas agora, com o governo em gestão e novas eleições em março, reina a indefinição: "Que medidas vão ser criadas para atrair os médicos?", continua o presidente da APMGF, que lembra que os exames para a especialidade terminaram na semana passada e os recém-especialistas permanecem sem saber nada.

Em janeiro deste ano foi ultrapassada pela primeira vez a barreira dos 1,5 milhões de utentes sem médico de família, número que tinha atingido o pico em maio de 2023, com 1,76 utentes sem médico. A promessa de atribuir um médico de família a cada utente é antiga: já António Costa o prometeu, e não cumpriu, e Luís Montenegro voltou a prometer o mesmo na campanha eleitoral de há um ano, preparando-se agora para entrar noutra campanha eleitoral com a mesma promessa por cumprir.