Foi Raymond Aron quem advertiu que a democracia é uma forma de regime frágil, pois assenta não apenas em instituições, mas em convicções partilhadas. Quando estas se desfazem, as instituições não resistem por si. A França de hoje parece mergulhada num vazio de convicções.
A decisão judicial de condenar Marine Le Pen por desvio de fundos públicos europeus a quatro anos de prisão (dois efetivos em regime domiciliário), uma multa de cem mil euros e inelegibilidade por cinco anos parece, à primeira vista, uma vitória do Estado de Direito, do bom senso e da democracia sobre a ameaça da extrema-direita. Mas bastam alguns minutos de distância crítica e análise política para perceber que estamos perante uma falsa solução, uma vitória de curto prazo que pode, infelizmente, abrir caminho a uma derrota estratégica muito mais grave.
O apetite por discursos radicais não vai desaparecer com a sentença. Pelo contrário, continuará a crescer, alimentado como antes pelo ressentimento, pela insegurança social, pela degradação dos serviços públicos, pelo pouco crescimento económico, pelos problemas sérios de integração e por uma elite política que parece cada vez mais distante da vida concreta das pessoas. A extrema-direita francesa não vai recuar: vai-se reorganizar.
E o que a decisão judicial fez foi oferecer-lhe um novo argumento, talvez o mais poderoso de todos — o da vitimização. A narrativa da perseguição política, de uma justiça instrumentalizada para afastar a vontade do povo, será repetida até à exaustão. E vai encontrar eco num país profundamente dividido, em que os alicerces do estado social e democrático estão corroídos.
A ilusão de que afastar Le Pen resolve o problema é sintoma do autoengano do centro político francês. Le Pen não é a causa do mal‑estar democrático francês — é a sua consequência. O país atravessa uma crise prolongada de representação e de eficácia governativa. Antes de Emmanuel Macron, a presidência francesa atravessou um período de desgaste e descrédito. Nicolas Sarkozy, envolvido em vários processos judiciais, acabaria condenado por corrupção, facto sem precedentes na Quinta República. Já François Hollande, embora sem escândalos judiciais, protagonizou uma das presidências mais frágeis da história recente: sem rumo claro, sem maioria sólida e sem apoio popular. A sua governação foi tão insípida que optou por não se recandidatar. Entre um Presidente condenado e outro irrelevante, a confiança dos franceses no sistema foi-se erodindo: terreno fértil para a ascensão do populismo.
E a alternância entre esquerda e direita tradicionais já não satisfaz ninguém, o projeto centrista de Macron perdeu o brilho e a sua governação, feita de tecnocracia e reformas impopulares, alienou vastos sectores da população. Perante isto, a extrema-direita oferece uma linguagem clara, culpados definidos e promessas fáceis. Uma combinação perigosa, mas eficaz em tempos de ansiedade coletiva.
A verdade é que a decisão judicial, embora tecnicamente legítima, é politicamente curta de visão. Ao aplicar desde já a inelegibilidade, mesmo sem trânsito em julgado, o Estado francês arrisca-se a transformar Le Pen numa mártir. Pior ainda, cria as condições para que a sua sucessão decorra com tempo e método. O nome mais provável para essa sucessão é o de Jordan Bardella, atual presidente do Reagrupamento Nacional, figura jovem, mediática e ideologicamente alinhada com Le Pen, mas sem o peso histórico do nome da família. Bardella tem vindo a posicionar-se como um herdeiro natural, com um discurso mais polido, mas não menos radical. Um produto mais vendável ao eleitorado conservador e centrista desencantado.
Se o centro democrático francês persistir mais preocupado com as suas vaidades internas do que com respostas reais à população, não será só Le Pen que voltará mais forte. Será todo um projeto autoritário com nova embalagem e ainda mais apelo popular. Porque o que está em jogo não é apenas o rosto que lidera a extrema-direita. É a sua capacidade de se adaptar, de se renovar, de infiltrar o discurso público com ideias cada vez menos contestadas: a repulsa pela imigração, o euroceticismo, o culto da autoridade, a nostalgia identitária.
Macron, que em 2017 se apresentou como o antídoto moderno contra os extremismos, está hoje politicamente encurralado. Com uma base parlamentar enfraquecida, sem maioria absoluta, depende de alianças instáveis e vive sob constante bloqueio legislativo. Dentro de portas, perdeu parte significativa da sua autoridade. É por isso que se refugiou na política externa, tentando projetar uma imagem de líder europeu decisivo, de mediador internacional, de paladino da autonomia estratégica da União Europeia. Mas essa tentativa de compensação externa não resolve o mal‑estar interno. Macron sabe que as eleições de 2027 serão duras, mesmo que não seja ele o candidato, e que o seu legado está por definir.
A condenação de Le Pen, em vez de resolver este quadro, pode ter acentuado a sensação de que o sistema está a utilizar um “jogo sujo”. E é nesta perceção que reside o maior perigo: quando a justiça é vista como arma política, mesmo que injustamente, abre-se espaço para o cinismo cívico e para que o voto de protesto se transforme em voto de rutura. O eleitorado francês já demonstrou, em diversas ocasiões, a sua disposição para votar “contra o sistema”, mesmo sem grandes ilusões sobre quem o lidera. Se em 2002 o choque de ver Jean-Marie Le Pen na segunda volta mobilizou a República, hoje uma candidatura de extrema-direita é encarada com naturalidade. Esse é o verdadeiro sintoma da doença democrática.
França enfrenta uma encruzilhada: ou encontra um caminho de regeneração política e social, que volte a dar sentido à palavra “República”, ou cederá ao apelo de soluções fáceis mas perigosas. A arquitetura democrática europeia não é imune ao que se passa em Paris. A França é um dos pilares do projeto europeu, e uma viragem autoritária em França teria efeitos devastadores para o futuro da Europa, da política externa comum, da solidariedade institucional, da segurança e da União Europeia como a conhecemos. Le Pen ou Bardella propõem não só uma alteração de políticas, mas uma transformação profunda dos fundamentos da ordem liberal francesa e europeia.
É por isso que este episódio não deve ser lido como detalhe jurídico, mas como sinal de alarme. A democracia não se salva a partir dos tribunais, antes a partir da política. E a política, para se renovar, precisa de coragem, de clareza, de um projeto e propósito sério e de uma visão de longo prazo. Sem isso, o autoritarismo continuará a crescer não como aberração, mas como resposta.
A sentença de Le Pen pode parecer um triunfo. Mas será, talvez, apenas a cortina que esconde o palco onde se prepara o próximo ato. Mais sofisticado, mais popular, mais perigoso. Se a resposta democrática não estiver à altura, o que virá a seguir não será apenas uma figura. Será um projeto. E este virá com força.