Foi no rescaldo do lançamento de “A Nossa Camisola” que frutou a conversa que se segue. Nela, Mauro Xavier, autor, mas não pai da obra, desvela o que nesta consta, num prólogo ou epílogo que resvala para uma discussão mais abrangente e mais profunda sobre aquela “que é uma parte muito grande” da vida do também comentador e cronista: o Sport Lisboa e Benfica.

De quase tudo o que é Benfica se falou aqui: do “mini-Seixal” no Norte à entrada a sério no gaming e de Madrid a Liverpool, sem esquecer as eleições que se aproximam não as Legislativas, nem as Autárquicas, mas as Presidenciais (não essas, as de outubro).

Em jeito de disclaimer, a entrevista não escusa a leitura do livro recém-publicado, mas fornece (ou a isso se propõe) um conhecimento prévio dos traços gerais de “A Nossa Camisola” que pode até – passe a pretensão – servir de suporte à leitura.

Bola na Rede: Obrigado pela disponibilidade, antes de mais. Infelizmente não podemos estar no mesmo espaço físico, mas vamos imaginar que estamos na mesma sala. Estamos a ler e a discutir “A Nossa Camisola” e nessa sala – só por acaso – há uma porta que dá para o gabinete onde trabalham os já candidatos à presidência do Benfica. Quando olha para essa porta já a vê mais aberta do que há umas semanas?

Mauro Xavier: Eu não sei quem estaria para lá dessa porta, porque ainda hoje apareceu mais um candidato (Cristóvão Carvalho) e já se fala de mais um. Portanto, eu vou aguardar serenamente pelos candidatos, pelas equipas e pelos projetos. Acho que é isso que deve ser feito. Foi para evitar olhar por trás de portas e cultos de personalidade que preferi pôr ideias fora que são válidas para qualquer candidato. O que me move é, exclusivamente, o sucesso do Benfica e as vitórias do Benfica e achei que num ano eleitoral há uma tendência sempre muito grande para os cultos de personalidade. E o que eu acho que é relevante não é discutir objetivos, é discutir a forma de atingir os objetivos. Eu digo sempre: Benfica só há um. Não há nenhum sócio do Benfica que não queira que em todas as competições em que o Benfica entra possa ganhar. Eu acho que essa é a parte fácil estarmos todos de acordo, nada nos divide dessa forma. Mas para mim as perguntas relevantes são “como é que se chega lá?”, “como é que isto se pode atingir?”. E foi essa reflexão que eu quis fazer, partindo de duas premissas que para mim são importantes. Como eu costumo dizer, não há projetos de folha em branco, há sempre uma realidade. Não fazendo juízo de valor sobre essa realidade, é olhar para essa realidade e perceber como é que o Benfica pode ser melhor. E foi essa a reflexão que tentei pôr no papel, de qual seria o caminho, quais seriam as medidas a tomar para chegar a uma coisa que é única para todos, que é nós querermos o Benfica a ganhar sempre e, se não sempre, o máximo de vezes possível. Portanto, eu digo sempre: ok, nisso estamos todos de acordo, a questão é como. Portanto, eu para poder ver portas de outros candidatos abertas, quero ouvi-los sobre o “como” e até agora ainda não ouvi o “como” de nenhum, acho que estão um bocadinho empatados nessa componente.

Bola na Rede: Sendo assim, nesta pré-campanha, está a ouvir mais como adepto e sócio do que como protocandidato?

Mauro Xavier: Sim, ou seja, eu, se alguma vez tivesse alguma coisa a dizer aos sócios do Benfica, marcaria uma sessão de apresentação e falaria com os sócios do Benfica. Eu percebo as interpretações que são feitas dessa forma, mas percebe que é um bocadinho peculiar eu não ter nada para anunciar nesse ponto e esse ser o ponto. Portanto, compreendo a questão, respeito a questão, como fiz questão de dizer não é uma questão a que feche a porta, mas não está, de maneira nenhuma, nada planeado para outubro de 2025. Podem surgir situações muito estranhas que me poderiam levar a isso, mas não estou a ver de maneira nenhuma esse caminho. Acho que a nossa palavra é importante e para podermos evitar dizermos coisas como “eu nunca serei candidato” ou “nunca mais vou ser candidato” e depois aparecer como candidato… Acho que essas coisas se evitam um bocadinho dessa forma.

Bola na Rede: Dizia que pretendia apresentar medidas transversais a qualquer candidato. É esse o principal impacto que quer ter com o livro? Mais do que se pensar que o Mauro Xavier tem umas ideias interessantes, que essas ideias, independentemente de quem as tem, possam explicar como o Benfica pode ter sucesso ou mais sucesso do que até aqui?

Mauro Xavier: Eu digo sempre uma coisa: as boas ideias não têm pai. Ou seja, o que é importante é: um, reconhecê-las como boas, dois, a capacidade de as implementar. Só ter as ideias não faz muita diferença, a diferença está em quem tiver a capacidade de as implementar. Portanto, acho que é a combinação de reconhecer três coisas: uma, é preciso planear, e, apesar de isto ser a indústria de pôr a bola na baliza e ela às vezes não entrar, há um trabalho por trás, há um trabalho profissional que obriga a pensamento, a estratégia, a investigação, a um trabalho invisível. Depois, por vezes, desaparece, passa-se de bestial a besta, numa indústria que é uma indústria de entretenimento, muito rapidamente. Mas todo o trabalho invisível não pode ser com base na bola entrar ou não, tem de estar sempre feito. Foi por isso que quis recentrar a conversa, quis dizer assim: há aqui um conjunto de coisas que têm de estar feitas para o Benfica continuar a lutar para ser dos maiores e melhores clubes do mundo. Desse ponto de vista, foi esse o objetivo. Estratégia, dentro da estratégia como é que se faz e depois é garantir, como falava há pouco das portas, quais são as pessoas com capacidade para implementar as ideias, com base na sua experiência e no seu perfil. Foi isso que me mobilizou. O papel é dar um contributo àquela que é uma parte muito grande da minha vida, que é o Benfica. Sendo ele de génese associativa, acho que é da minha responsabilidade, com a experiência profissional que tenho e com as horas que vou investindo numa indústria de que gosto, passar a papel, nestas coisas dos livros, que pensamos que vai sair mais facilmente e que deu muito mais trabalho do que estava a pensar. E depois achamos sempre que não ficou tão bom como pensávamos e é sempre ouvir outras pessoas a dizer que ficou melhor do que alguma vez pensaram. Gostei muito deste processo, mas é um processo doloroso também.

Bola na Rede: Olhando para quem tem assumido ou, pelo menos, flertado com a candidatura à presidência do Benfica, há alguém que veja com capacidade para implementar, se não todas, pelo menos grande parte destas ideias ou faz falta mais capacidade nalguns candidatos ou em quem possa surgir?

Mauro Xavier: Eu vou ser muito sincero, num clube com mais de 400 mil pessoas, como nós temos, e acreditando, de acordo com os novos estatutos, que há mais de 50 mil que tenham condições para aceitar este desafio, a primeira seleção tem a ver com os candidatos que queiram concorrer. Isso é uma componente de vontade muito própria de ter força e querer fazê-lo. E eu essa vontade tenho de aguardar. Hoje, temos apenas um candidato que mostrou publicamente não disponibilidade, não intenção, mas a vontade. E tenho de agradecer ao João Diogo Manteigas por assumir isso. E só vou falar de algum potencial de apoio no fim de conhecer todos. Ou seja, ainda o presidente da mesa vai ter de marcar eleições, vai ter de dar o prazo de entrega das candidaturas e quando as candidaturas estiverem postas vamos poder compará-las e conversar sobre isso. Por isso, eu vou voltar a insistir muito nisso: eu não me foco em personalidades, foco-me sempre em como é que esses projetos querem estar feitos e o somatório das equipas.

Bola na Rede: Mas vê, por exemplo, alguém como Cristóvão Carvalho, que disse que o Benfica em 12 anos tem de vencer três títulos europeus (que é uma frase sempre forte, mas o como depois…), com o perfil de alguém capaz de implementar estas ideias, algumas a médio e longo prazo e que, lá está, não dependem só da bola entrar ou não entrar?

Mauro Xavier: Isso cabe ao Cristóvão dizer se se revê nestas ideias e não a mim dizer se o vejo a fazê-lo. Por isso, eu viro a pergunta ao contrário. Eu acho que ele falou muito de objetivos e eu diria ao contrário. O objetivo máximo seria ganhar os 12 em 12 e seriam 12 Champions, se nós quisermos pôr ao contrário. Não consegui perceber três em 12, não percebi o racional nesse ponto, mas percebo querermos ganhar mais do que temos ganho ultimamente e eu faço essa reflexão. Às vezes, os benfiquistas não fazem essa reflexão e é algo que eu ponho no livro. Eu tentei ir perceber a hegemonia por década, ok? A melhor década do Benfica foi nos anos 70, com oito títulos. De lá para cá, voltamos a ganhar seis na década passada, entre 2010 e 2020. Nunca conseguimos chegar a um patamar mais do que este dos oito em dez. Por isso, estamos a falar de bater o melhor da nossa história e eu percebo que essa possa ser a única ambição. Eu, Mauro Xavier, considero qualquer mandato de dez anos positivo quando se é hegemónico, que é ganhar, pelo menos, cinco em dez, ganhar a maioria dos títulos em que o Benfica participa. Nós queremos ganhar todos, o mínimo do que eu chamo uma boa performance, que é uma coisa diferente, é ganhar 50%.

Bola na Rede: Dependendo também do ponto de partida, não é?

Mauro Xavier: Estou a falar do ponto de partida do dia de hoje. Se estivéssemos em bancarrota total, se estivéssemos sem infraestruturas, sem condições… O ponto de partida tem de ser hoje e, portanto, a partir da data de hoje, como é que se constrói daqui para a frente, para os próximos dez anos. Uma das coisas que eu quis olhar é: o Benfica, quando foi criada a sua SAD, faturava 50 milhões de euros (ME) por ano de operação. Dez anos depois, faturava 100 ME por ano. Ou seja, em 2013, faturava 100 ME. Dez anos depois, faturava 200 ME quase. Isto significa que a grande questão aqui é como é que, daqui a dez anos, em 2035, vamos faturar 400 ME na operação, sem venda de jogadores. Foi uma dessas reflexões que me levou a dizer: ok, como é que este problema ou como é que esta ambição se resolve? Se nós continuarmos a crescer à taxa de crescimento de 7%/ano, que é a média dos últimos 20 anos, quando olhamos para o Real Madrid, com uma base maior, a crescer a 10%/ano… Ou seja, os outros são maiores e crescem mais rápido, se nós não continuarmos a crescer vamos ter um problema. E quando existe muito a mentalidade de “eu já só não quero perder receitas, quando as temos que cobrar”. Foram essas inquietações que me levaram a pôr no papel caminhos para o futuro.

Bola na Rede: E são inquietações que já entram melhor no universo benfiquista? Quando se fala de contas há sempre aqueles que dizem “eu quero é ganhar e o dinheiro é irrelevante”. Como é que se conjuga a parte desportiva com a parte financeira, sem chegar ao patamar de quase festejar vendas?

Mauro Xavier: Eu digo sempre que são duas faces da mesma moeda. O principal é o sucesso desportivo, mas não há sucesso desportivo sem sustentabilidade financeira e não há sustentabilidade financeira de médio prazo sem sucesso desportivo. Agora, também sou muito claro noutras coisas. Deitar dinheiro para cima dos problemas não resolve todos os problemas. Há necessidade muitas vezes de os resolver de outra maneira, que é com mais gestão, modelos de execução diferentes, metodologias diferentes. Mas ao não meter dinheiro também é impossível ter sucesso. Portanto, eu digo que faz parte do mesmo círculo virtuoso de sucesso do Benfica. Não podemos falar de formação e de novas infraestruturas e de melhoria da equipa A sem termos meios financeiros e não podemos falar de meios financeiros sem termos capacidade de angariar novas receitas e sem sucesso desportivo. Eu acho que os sócios, se me perguntares, estão preocupados com três grandes coisas, por esta ordem: o sucesso da equipa A, a aposta na formação, da qual têm muito orgulho, e depois, por fim, a sustentabilidade económica. Eu diria que estas são as três primeiras preocupações dos sócios. Depois, garantir também que se ganha nas modalidades e em tudo o Benfica possa participar e que somos os melhores em qualquer coisa que fazemos. Eu costumo dizer que nós queremos ter do melhor autocarro ao melhor centro, nós queremos ter o melhor em tudo. Essa é a mentalidade que nos leva a querer fazer. Agora, o melhor não costuma ser o mais barato e, portanto, convém termos os meios económicos que nos permitam reter os melhores jogadores, atrair os melhores jogadores e para isso há a necessidade de fazermos investimentos, mas depois esses investimentos têm de dar resultados desportivos e esse é o objetivo.

BnR: É essa parte que tem falhado, sobretudo na presidência de Rui Costa? O Benfica até tem atraído jogadores, as receitas andam ali no vai e vem, já lá vamos, mas tem sido aí que o Benfica tem pecado?

MX: Eu diria que, se quisermos dividir este mandato, que está a terminar agora o quarto ano, ele acaba por ter quatro histórias bastante diferentes. Eu acho que temos de analisar cada uma delas. Na história do primeiro ano, que eu chamo “a herança de Jorge Jesus”, acho que se perdeu esse ano por não se ter tomado a decisão, na chegada de Rui Costa, de fazer abandonar Jorge Jesus quando já estava evidente. Todos nos lembramos daquela novela com o Flamengo, em que acabou com derrotas em Alvalade, no Dragão, duas vezes, e depois ainda nós a pagarmos os ordenados todos e com um abraço. Eu acho que essa transição não é feita e não é pensada com uma alternativa, porque entra Veríssimo, que não se sabia se era suplente, se era titular e estava independentemente dos resultados. Dá-me uma grande alegria com a passagem aos quartos de final da Liga dos Campeões, mas tivemos ali um fecho de ciclo, na minha opinião, penoso enquanto primeiro ano de alguém que conhecia muito bem a componente desportiva. Teve quase um annus horribilis como está a ter André Villas-Boas ou como teve o próprio Frederico Varandas quando entrou no Sporting e aposta em Marcel Keizer. Parecia alguém vindo de fora, estando dentro, e não fez uma transição decisiva.

Bola na Rede: Foi uma questão de decisão mal tomada ou não tomada?

Mauro Xavier: Não sei qual é que pesou porque não estou na cabeça do Rui Costa. Sei que o resultado final gerou isso. Eu acredito que se ele não tomou a decisão foi porque acreditava que o Jorge Jesus ainda podia dar a volta à equipa naquele momento em que pega na equipa. Eu achei que já não estava. Depois temos uma grande decisão tomada chamada Roger Schmidt. Eu lembro-me do que foi dito sobre os 38 em estágio. Do melhor futebol que vi o Benfica jogar durante sete ou oito meses. Lembro-me de estar a sonhar quem seriam os adversários do sorteio e a achar que seria possível sonharmos em progredir até mais longe e isso é um sonho que não tem preço. Também sei que terminei essa época com dois pontos apenas de avanço. Não com o coração nas mãos, mas com muito pouca vantagem para aquilo que tinha sido a qualidade do futebol apresentado esse ano. Na minha opinião, foi um grande campeonato que o Benfica fez. Portanto, temos uma primeira época que não foi bem gerida, desse ponto de vista, uma segunda época que é bem gerida e sofre, provavelmente, de um erro que nos custa a terceira época, que tem a ver com uma renovação antecipada de um treinador de futebol. Um conselho que eu daria a qualquer Direção do Benfica é: não se renova com treinadores de futebol mais do que a própria época, porque isso é só um custo. Se o treinador do Benfica quiser sair, o negócio do Benfica não é vender treinadores. Não é por causa de uma cláusula de dez milhões de euros que o Benfica deve estar refém, ainda agora vimos no Sporting. Não são esses dez milhões de euros que nos dão mais títulos, mais estabilidade ou seguram o treinador. No dia em que o treinador quiser ir embora, ele irá embora. E o negócio do Benfica nunca pode ser criar treinadores. Enquanto o treinador estiver contente e os adeptos estiverem contentes com o treinador, ele vai querer ficar. Vimos isso noutros sítios. O Rúben Amorim ficou enquanto quis ficar, quando encontrou o projeto, apesar de qualquer promessa, foi-se embora. Não é por aí que isso acontece. Por isso, acho que essa renovação, apesar de se chamar Roger Schimdt ou qualquer outra pessoa, não deve acontecer no futebol. Os sonhos de se ter treinadores durante 20 anos ou que fazem muitas épocas não ganhando são possíveis excecionalmente, serão muito difíceis por regra. Portanto, contratos longos não os vejo bem e acho que demorámos muito tempo a resolver Roger Schmidt. Roger Schmidt perde os benfiquistas algures em novembro do ano antes de sair. Quando vai à Real Sociedad e faz um dos piores jogos do Benfica na Champions, seguido de maus resultados, penso que 50% dos sócios começaram a ficar com a ideia e é muito difícil um treinador ter sucesso quando não joga bem, independentemente de ele ter conseguido um conjunto de resultados que nos permitiu manter vivos, mas sem jogar bem. Até que, de repente, as coisas caem em Alvalade, decide-se mais uma vez começar a época com ele e veio-se a provar que tê-lo mantido foi um erro, mas esse é compreensível, renová-lo para a época seguinte custou-nos cinco pontos e que bem nos saberiam esses cinco pontos à data de hoje. Não é que o Bruno Lage já tenha estado nesse ponto. E pronto, sobre Bruno Lage não falo, falo só dos anteriores para fazer aqui um resumo destes três anos. Temos uma grande decisão e depois temos um período menos bom e está tudo em aberto. Se eu aplicar o critério que aplicarei a qualquer um, que é ganhar dois em quatro, Rui Costa e a sua equipa podem ganhar dois em quatro, o que significa um período à altura do Benfica.

BnR: Olhando também para as modalidades e para o futebol feminino, é uma presidência bem sucedida, mais do que olhando só para o futebol masculino, ou os sócios não vão olhar tanto para isso nas eleições?

Mauro Xavier: Eu digo sempre que o peso do futebol é sempre superior a tudo o resto junto. Ou seja, acho que se se ganhar tudo o que haja para ganhar nas modalidades e não se ganhar nada no futebol ninguém vai dizer que foi um bom mandato. É desse ponto de vista que acho que a avaliação é sempre feita. Eu que sou fã de acompanhar várias das nossas modalidades fico contente por estarmos a um jogo de sermos pentacampeões no futebol feminino. Acho que esta época pecou por não termos avançado na Liga dos Campeões, aquela eliminatória prematura doeu-me um bocadinho, mas se me perguntarem onde eu sonho mais rápido poder levantar um título europeu é no futebol feminino. Acho que podia haver uma aposta muito forte de tentar ganhar no futebol feminino. Acho que a passagem para a SAD é bem feita, acho que algumas coisas são positivas desse ponto de vista, desse caminho. O futebol feminino tem tudo em aberto, como o futebol masculino, e espero ser campeão, espero ganhar a Taça de Portugal e a Taça da Liga e que as nossas meninas e os nossos meninos possam fazer exatamente igual, seria um ano muito, muito bom para o Benfica, com dois tripletes. Era essa a minha vontade de aquilo que acontecesse durante o mês de maio.

Bola na Rede: Tem-se falado muito de no futebol feminino haver essa aposta, apesar de já aparecerem clubes como o Chelsea, o Arsenal, clubes já com outro poderio. Olhando para o futebol feminino, mas também para o futebol masculino, para atingir feitos dessa magnitude, é preciso o Benfica adaptar-se ao futebol atual de outra forma ou dá para manter só esta continuidade e chegar a esse patamar? Ou se não houver mudanças dificilmente se alcança esses patamares?

Mauro Xavier: Em relação ao futebol masculino, dizer duas ou três coisas importantes que, se quisermos falar do sonho da Europa, têm de estar presentes. Acho que ninguém exige que o Benfica tenha de ser campeão europeu amanhã, mas todos exigem a ambição europeia de chegar o mais longe possível e ter o direito a sonhar. Porque é que eu digo “o direito a sonhar”? Porque hoje para sermos campeões europeus temos de ganhar 17 jogos ou temos de passar por 17 jogos. Já não estamos na fase em que os campeões europeus saíam de seis jogos. Houve momentos da vida em que seis, sete jogos daria o campeonato. Portanto, alguma sorte no sorteio poderia provocar alguma coisa, a 17 jogos já não é assim. E eu relembro uma coisa: o Real Madrid, que é o clube que tem mais receitas de operação, faz um bilião de euros e o Benfica faz 200 milhões de euros, portanto temos um rácio de um para cinco entre os dois, que não é assim tão distante se olharmos, por exemplo, para o Manchester City, que faz 960/970 milhões de euros, mas a economia inglesa é 13 vezes maior do que a portuguesa e, portanto, nós aí fazemos um rácio de um para quatro e meio. Ou seja, enquanto estivermos nestes rácios de um para quatro, um para cinco, acho que pode aparecer a cada década, a cada 20 anos, alguém fora das Big Five ou fora das Big Four poder fazer uma gracinha europeia. Para isso, acho que são precisos alguns ingredientes e tentei pôr esses ingredientes no livro. Temos de manter a média dos plantéis mais tempo a jogarem juntos, temos de misturar a juventude com a experiência e os regressos, como aconteceu agora com Di María, que eu acho que é uma coisa muito positiva, que eleva muito o nível competitivo da equipa. Por isso, acho que sim, é possível, não acho que seja a coisa mais normal e típica. O Benfica normalmente faz top 20, top 21, top 22 em receitas e faz permanentemente classificações abaixo do top 16. Aquilo que eu acho que temos de consolidar primeiro é mudar as nossas receitas de top 20 para top 14, top 13, por aí, e aí então passar de uma permanência no top 16 para o top oito e, então, quando estivermos no top oito ganharmos o direito a sonhar. Enquanto tivermos os outros patamares, há aqui escadinhas a subir ainda e é isso que eu tento explicar. Apesar de a bola poder entrar várias vezes consecutivas numa época, há muito trabalho invisível que faz com que a sorte dê imenso trabalho. Enquanto o Benfica não passar para esse top 15, top 13, vai ter mais dificuldade. Quando baixarmos um bocadinho mais, vamos ter uma probabilidade um bocado maior de podermos sonhar com algo real.

Bola na Rede: E isso conseguir-se-ia em quantos anos?

Mauro Xavier: Eu estou convencido que isto é possível alcançar entre um e dois mandatos, eu diria que cinco, seis anos deviam ser suficientes para se começar a ver essa alteração se começasse a ser executado de imediato. Eu digo sempre: qual é o objetivo? É as despesas da operação serem iguais às receitas da operação. Hoje estão deficitárias em quase 100 milhões, o que significa obrigatoriamente que se tem de vender. Num primeiro momento, se uma tem de ser igual à outra, a única forma é reduzir salários e reduzir compras, é cortar em custos. O que eu quero fazer é cortar nalguns custos, mas garantir que se cresce em receitas e para crescer em receitas tem de se identificar a forma de aumentar cada uma das receitas para se fazer um balanço, para depois se manter jogadores em média três anos e não em média inferior a um ano das nossas promessas do Seixal. Portanto, tem a ver com essa joia, temos orgulho imenso no Seixal, mas queremos os nossos homens criados no Seixal a poderem estar mais tempo na equipa principal. É essa a cadeira de sonho deles.

Bola na Rede: Além do “ter de vender”, o Benfica tem falhado no “quem tem de vender”? Tem-se falado de o Benfica vender António Silva. Faria sentido vender para manter Tomás Araújo, por exemplo?

Mauro Xavier: Quando não há pão, todos ralham e ninguém tem razão. Se o Benfica tiver um défice, é aquilo que o mercado ditar. Portanto, não há uma intenção de vender um para ficar com o outro. Não há essa possibilidade. Eu acredito que o Rui Costa no início da época não quisesse vender o João Neves, mas foi a única possibilidade do mercado num determinado momento e tomou essa decisão, porque chegou a esse sítio. Por isso é que eu digo que temos de nos preocuparmos com a sustentabilidade financeira, porque, se não, não vamos ter capacidade desportiva. Se chegarmos a essa situação, já temos um problema em mãos. Eu estou perfeitamente convencido que se tivéssemos vendido Neres e Marcos Leonardo um bocadinho mais cedo não teria havido essa necessidade de o fazer. Mas isso tem a ver com as condições de mercado e com os planeamentos que se fazem. Eu não sei o que o mercado vai dizer, o que eu sei é que o Benfica ainda vai ter de vender na próxima época para equilibrar as suas contas, porque o crescimento das receitas não está a dar, ainda estamos com o modelo anterior. Esse modelo é que tem de começar a parar. Do ponto de vista de custos do Benfica, há três que são os mais significativos: o salário do pessoal, a compra de jogadores e o custo da dívida. Enquanto não se trabalhar em nenhum destes três vai ser muito difícil. Depois temos os gastos normais, do dia a dia da atividade do Benfica, em que, sim, se pode poupar dinheiro, os FSE, mas não resolve o problema de médio prazo do Benfica, que tem de ser resolvido porque o Benfica não pode gastar mal o euro dos sócios, mas é por esse princípio de boa gestão, não pelo princípio de resolver a equação do futebol. Desse ponto de vista, acho que temos de trabalhar nos outros eixos. Gostei muito de ouvir o Nuno Catarino a falar de crescimento de receitas, é algo de que não se ouvia falar, crescer em ambição. Agora vamos ver os “comos”.

Bola na Rede: Fala-se do naming do estádio, dos direitos televisivos, agora do Mundial de Clubes… Fala-se de muitas potenciais receitas, mas parece que, depois, é sempre pouco ou, então, não estão a ser bem aproveitadas.

Mauro Xavier: Eu digo o contrário. Acho que Domingos Soares de Oliveira, fiz essa pesquisa há pouco tempo, falou do naming do estádio pela primeira vez em março de 2011. Chegamos a março de 2025 e Catarino veio falar da mesma coisa, com um intervalo de 14 anos. Eu não vou discutir se o naming tinha sido bem ou mal vendido, mas 14 anos depois não se encontra um parceiro. Por isso, a única coisa que peço é que não se espere mais 14 anos pelo naming. Aquilo que defendo é um patrocinador das infraestruturas do Benfica, que inclua o Seixal, o Estádio e os pavilhões. E tem de se criar um pacote que seja atrativo para este sponsor ter mais-valias sobre esse investimento. Repara, os namings dos estádios, quando não são feitos no momento da sua construção, o estádio ganha outro nome. Nós chamamos Estádio da Luz independentemente de qualquer nome que se lhe venha a dar, da mesma forma que chamamos Estádio das Antas ao Dragão. Há coisas que demoram muito. Portanto, para alguém estar a pagar entre cinco e dez milhões de euros por um naming que não vai ficar de médio prazo é um investimento duvidoso. Agora, há players com ativação de marca, como, por exemplo, marcas de jogos que, se conseguirmos dar uma aposta diferente na entrada do futebol e criarmos um ambiente de fora que permita fazer uma atração numa questão cultural… Eu acho que se pode fazer, daquilo que vou conhecendo de profissão, que vou vendo no mundo. Agora, não vai ser um patrocinador clássico de um banco ou de uma marca de grande consumo ou de grande retalho ou de telecomunicações. Ou reinventamos também quem são os nossos parceiros estratégicos ou não vamos ter sucesso. Eu acho que juntarmos o físico ao digital é aquilo que pode ser o futuro do Benfica, porque é uma marca muito forte que pode inovar.

Bola na Rede: E isso conseguir-se-ia com as infraestruturas existentes, certo?

Mauro Xavier: Sim. Eu defendo uma expansão de infraestruturas, mas isso é outra coisa. Eu acho é que elas têm de ser geridas num pacote diferente do que dizer que é o naming do estádio. É dizer que é um parceiro de infraestruturas e o que é que vamos fazer com essas infraestruturas e o que esse parceiro vai ter de benefício. Ou seja, o Benfica vai ter o benefício de ter o patrocínio, mas o benefício também tem de ser para o seu patrocinador e estarem alinhados neste negócio. Eu acho que o Benfica vai ter de apostar muito forte no gaming, para atração de novos públicos. E não estou só a falar dos e-sports, estou a falar de gaming na totalidade. E isso abre portas para outros patrocinadores e as nossas infraestruturas podem ser muito interessantes nessa fixação de novos públicos e de atração de novas receitas, para nós e para os patrocinadores, porque traz essa credibilidade adicional e essa componente institucional. Uma das coisas a que eu faço referência no livro é a King’s League, que foi criada pelo Piqué e que junta os dois mundos. Não é um jogo de futebol clássico, mas traz muito da vivência do futebol, e termos uma “Benfica Edition” e aproveitarmos essa dinâmica dentro da componente de jogos para começarmos a dar o salto noutras áreas, que nos permitam a colocação da marca, a colocação do produto, a criação de novos canais de venda. Portanto, trazermos o Benfica para o século XXI numa mentalidade de século XXI. E aí sim eu acho que dá para fazermos esse salto. O modelo de século XX de metermos o nome do banco no estádio estamos há 14 anos a falhar e eu costumo dizer, por defeito profissional, que se tentarmos a mesma coisa o resultado vai ser igual. A minha proposta é tentarmos coisas diferentes. Eu acredito que elas resultem, mas sem as experimentarmos não dá. Tentar as mesmas é que eu digo sempre que o resultado já sei qual é.

Bola na Rede: Ainda me lembro das críticas à King’s League, quando foi criada, e agora já há Queen’s League e, de repente, um golaço fica viral e aparece-me no Instagram e eu não sigo nada daquilo…

Mauro Xavier: A King’s League, no ano passado, atraiu 30 milhões de patrocínios. 30 milhões de patrocínios. É equivalente às vendas de merchandising e patrocínios do Benfica hoje. Uma coisa amadora que enche estádios. Nós não percebermos as correntes, eu já nem digo criá-las, digo, assim que se percebe, adaptá-las e trazê-las. Acho que estaríamos a perder tempo e muito rapidamente isto vai explodir, como tem vindo a explodir e nós temos visto isso. Eu tenho essa experiência de viver em Madrid e assisto mais de perto a essa componente da King’s League, que eu pensei que não ia dar nada e o futuro veio provar que estava profundamente errado. Quanto mais estudei e vi, mais percebi que essas comunidades estão lá e temos de alavancá-las e ligar os nossos antigos jogadores e os futuros adeptos do Benfica. E todos eles hoje consomem futebol de uma maneira muito diferente. Se olharmos para os benfiquistas dos cinco aos 15 anos, consomem futebol de uma forma muito diferente de há duas ou três gerações atrás. Não perceber isso é estarmos a descuidar a nossa futura base de adeptos. O Benfica, felizmente, tem conseguido crescer muito a sua base de adeptos e de sócios, mas tem de estar sempre a modernizar-se e a inovar nas fontes de receitas.

Bola na Rede: E o Mundial de Clubes pode ajudar nisso, também por ser nos EUA? Uma boa participação pode ser importante a esse nível?

Mauro Xavier: Todos estes eventos são fundamentais. Por isso é que digo que para estarmos mais na Liga dos Campeões, mais em torneios internacionais, mais em Mundiais de Clubes vamos ter de reinventar as nossas competições nacionais. Eu digo sempre isto, na Liga dos Campeões tivemos um sorteio do tipo da Taça de Portugal, passou para uma fase de grupos e agora tem uma fase de liga. Mudou três vezes e o nosso campeonato não mudou coisa nenhuma. Nenhum clube de futebol vai votar a favor da sua própria descida e, portanto, como eu já vi, propostas de baixar para 14 clubes é viver no mundo dos contos de fadas, isso não existe. Não faz sentido por duas razões: primeiro, porque ninguém vota pela própria exclusão e, segundo, porque ninguém vai pagar por menos jogos. Se tivermos menos jogos, há menos produto televisivo para ser passado, não dá mais. Por isso, o único modelo que funciona com 306 jogos e 18 equipas é passar a ter uma primeira volta do campeonato igual ao modelo da Liga dos Campeões, em que todos jogam contra todos, umas vezes em casa, outras fora, mas não repetem. Os primeiros oito, então sim, jogam a duas mãos, os segundos dez jogam também a duas mãos. O que é que isto permite fazer? Ter três Benfica-Sporting, três Benfica-Porto, três Sporting-Porto. Isto melhora a qualidade do produto e permite duas coisas adicionais: que quem seja campeão ou os oito primeiros só façam 31 jogos no campeonato, libertando três jogos para jogar os dois adicionais da Liga dos Campeões e um a mais no play-off, e permite que quando estivermos no pico das competições europeias estejamos na primeira fase do campeonato em Portugal, o que permite uma rotação maior dos plantéis, porque só é preciso estar nos oito primeiros. Eu acho que isto é uma inovação interessante, melhora o produto, reduz o número de jogos e aumenta a competitividade do campeonato. Só para dar um exemplo dos caminhos que aponto no livro e que acho que reuniria consenso junto dos clubes portugueses, porque é bom para todos, ninguém perde rigorosamente nada com isso.

Bola na Rede: Isso depois vai entroncar nos direitos televisivos de alguma forma? Continua a ser melhor centralizar?

Mauro Xavier: Eu sou totalmente a favor da centralização, só nós e Chipre é que não o fazemos. Agora, primeiro é dizer “centralização sim”, depois é “como é que se atinge a centralização”. Quais as vantagens da centralização? Diversas e eu acho que toda a gente concorda com o modelo. Depois temos é de discutir qual é a chave de distribuição. Eu acho que não há uma discussão sobre centralização, quer seja obrigatória, do Governo, ou não. O que eu acho é que o que não há da parte do Governo, e os clubes vão ter de chegar a acordo rapidamente, é uma chave de distribuição. Eu aponto no livro três questões fundamentais: uma é a chave da distribuição, depois o modelo de centralização e o modelo de internacionalização. São três coisas diferentes, vou começar pela chave de distribuição. Aquilo que acho que era bom para o futebol português era 30% para os clubes, 70% a dividir com base na tabela classificativa, com base nas audiências televisivas e com base no número de espetadores em estádio. Portanto, seria 70/30 o modelo que defendo. Depois, nestes 70% podemos pôr, grosso modo, 30% para sucesso desportivo e 20% para cada uma das outras chaves. Isto é só para o mercado português, só para as transmissões em Portugal. Tudo o que seja fora de Portugal, cada um dos clubes, qualquer clube pode vender os seus jogos totais. Ou seja, o Benfica podia, dizendo ainda 34 jogos, para facilitar, comercializar os seus 34 jogos do campeonato, não os 17 em casa. Eu hoje venderia para a Turquia, porque tenho dois jogadores turcos e tenho interesse na Turquia. É uma coisa que interessa. E não interessa à Liga Portugal, interessam os jogos do Benfica. E a receita que obtivesse desse modelo daria 30% a dividir por todos e 70% diretamente para o Benfica, que angariou mercado. O mesmo é válido para o Sporting se fosse vender para a Suécia. Cada clube ficaria responsável por encontrar as suas receitas nos seus mercados e vende só os seus jogos. Vende os seus jogos todos e, como contrapartida, dá os 30% para o bolo total das receitas. E isto é muito importante porque não estamos a delegar na Liga o futuro dos clubes. Pode chegar uma Apple e vender um pay-per-view. Cada um poderá escolher os seus modelos, mas o que ficará fechado é o direito de eu poder vender e qual é a chave de distribuição, porque ninguém vai comprar 306 jogos do campeonato português, nenhum país do mundo, por um valor que seja razoável, que seja sequer interessante.

Bola na Rede: Vemos que ainda esta época o Brasil não quis a Liga Portuguesa…

Mauro Xavier: Espanha, França… Isto é aquilo que permite vender um produto que tiver valor. Os clubes até podem fazer plataformas de streaming só para os seus adeptos. Cada um escolherá o que quiser. 30% para todos, 70% para quem faz a receita. Depois, que modelo a fazer. Também aqui temos de olhar para o pêndulo da história. O futebol começou por ser transmitido em canal aberto, depois, pela situação financeira dos clubes, criou-se a Sport TV para fazer efeito de caixa, compraram-se os direitos ao desbarato. Houve uma queda deste monopólio com o lançamento da Benfica TV, percebeu-se que havia quase 300 mil subscritores pagos, nós chegámos a ter a Premier League. Foi revendido isto num cenário de competição, com a entrada de um novo player, com a saída da NOS e da MEO, a abertura do mercado. Agora, sabemos que 75% dos direitos televisivos estão a ser pirateados e não é um fenómeno só português. O que é um fenómeno português é que 95% das casas já têm cabo, o que não acontece na maioria dos países. Portanto, já temos triple play e depois está a piratear-se os direitos televisivos em cima e, portanto, as receitas têm estado muito flat. Chega o verão e os meses sem competição e baixa, os subscritores são menos, o valor vai subindo, mas o total da receita não sobe. O que é que eu defendo aqui de modelo? Os únicos que têm interesse em pagar por estes direitos são os operadores triple play, são os operadores de telecomunicações, não há outro que tenha interesse nisto. Eles hoje é que têm o monopólio. Desde que tenham todos a DAZN ou todos a Sport TV ou todos outro canal, eles não perdem um único cliente e não querem saber desta receita. Aquela operação para eles é deficitária, são detentores, custa-lhes 40 ou 50 milhões de euros manter isto, mas não perdem clientes. O modelo que eu defendo é que a Liga TV ou a BTV – a BTV pode fazê-lo primeiro – sejam um canal aberto exclusivo de um operador. O que é que isto significa? Imaginem que a posição 16 ou 17 é a BTV e só está disponível na NOS ou só na MEO ou só na Vodafone. Quem quiser ver futebol vai migrar o seu contrato do seu operador atual para um novo e isso dói-lhes. Isso dói-lhes porque eles hoje pagam 250 euros a 300 euros pelo custo de aquisição de um cliente novo. E se eu conseguir dar a um operador três milhões de clientes novos, isto é que traz valor económico para o bolo das receitas de transmissão ser muito superior ao que é atualmente. E fazer um concurso a cada dois anos, para os outros terem direito a recuperar o que é dos seus concorrentes. O concurso é feito dizendo-se duas coisas: o preço máximo do pacote não pode passar o atual, portanto não podem pôr um premium, e tem de estar em sinal aberto não pago, o que significa que os outros vão ter de responder para manter clientes e baixar o preço. Isto acaba com a pirataria e permite voltar a explorar o dia de jogo pelas operadoras em publicidade e nas outras coisas todas. Portanto, este é o ovo de Colombo que eu defendo, mas é o único caminho que traz mais receitas. Onde há menor penetração de cabo, o futebol serve para penetrar mais cabo, então todos estão a financiar a expansão do cabo, que é o caso do modelo em Espanha. Esse não é o caso de Portugal. Tudo o que não seja aumentar as receitas 7% por ano é um mau negócio.

Bola na Rede: Estamos perto do fim da nossa conversa, mas queria olhar agora para o Seixal. É preciso olhar para os escalões todos, é certo, mas olhando para a equipa A do Benfica parece que falta ali qualquer coisa no aproveitamento da formação…

Mauro Xavier: Eu digo sempre que o objetivo não é ganhar troféus, é dar acesso à equipa A aos jogadores. Mas sabemos que quando ganham troféus o número de jogadores que entram na equipa A é maior. Se fazemos seis ou sete finais de Youth League e ganhamos uma Youth League, a qualidade dos jogadores é maior do que nos últimos três anos, em que fomos eliminados numa fase muito prematura da competição. Há três anos que não fazemos oitavos de final de Youth League. Não quer dizer que não haja alguém que floresça mais tarde, não é uma ciência exata. Mas sobre o Seixal dizer três ou quatro coisas. É preciso modernizar as infraestruturas do Seixal, primeiro ponto. Segundo, as infraestruturas em Braga e Famalicão e, futuramente, no Porto, são tremendas, a Norte, e, portanto, atrair um jovem para vir para Lisboa será cada vez mais complicado. Por isso, acho que vamos ter de criar um centro intermédio, que não é um Seixal, é um mini-Seixal como gosto de lhe chamar, mas mais do que uma escola a Norte, para conseguir competir nesse ponto de vista da atração. E há três ou quatro mudanças obrigatórias no Seixal. Acho que o Seixal tem de ter um administrador da SAD e não só um diretor técnico. O que defendo é o Benfica ter alguém responsável pela sua mística no clube, um diretor desportivo, um diretor de formação e um CEO, para além do seu presidente. E que esse diretor de formação tenha uma estrutura que tenha um diretor técnico, que é hoje o diretor do Seixal, e mais três componentes que acho muito importantes. Uma é ter um diretor da Escola de Formação do Benfica que tenha um colégio e a formação dos treinadores, duas infraestruturas novas para o Benfica para formarmos homens e formarmos treinadores, duas peças importantes do jogo. Os treinadores e os jogadores são o core business. O modelo do futebol ainda não está adaptado a formar treinadores, parecem quase os jogadores de rua de há 30 anos que apareciam e sabiam jogar sem ninguém saber qual era a metodologia que os levava a treinar e a preparar durante muito tempo. Temos de inverter este percurso. Hoje, estamos a ir buscar treinadores que foram jogadores. Temos de ter carreiras que os preparem. Portanto, um diretor técnico, um diretor dos treinadores, um diretor para a internacionalização das escolas, que coloque não as plantas do Seixal, mas o modelo do jogo e de franchising. E para isso precisamos de ter recursos humanos, precisamos de ter pessoas. Mas precisamos de coisas adicionais. Eu acho que precisamos de um gestor de ativos para aqueles que não fazem parte da equipa A, que ainda não completaram os seus contratos profissionais e que podem ser colocados para suportar os custos da nossa formação. Nós colocamos poucos ativos, normalmente fazemos aqueles negócios em que vai a custo zero e ficamos com 30% ou 40% da mais-valia. Eu acho que eles têm de ser colocados de forma diferente no modelo de formação. Portanto, há aqui uma revolução muito grande do Seixal, no meu ponto de vista, e com uma injeção transversal da tecnologia. Acho que há necessidade de vermos o Seixal de uma outra maneira.

Bola na Rede: O Benfica tem feito mais uma internacionalização do Seixal, abrindo academias, por exemplo, em África. Parte também daí ou é mesmo internamente, Seixal e fora do Seixal, mas ainda dentro de Portugal, que tem de se dar essa evolução?

Mauro Xavier: Eu acho que tem de ser a combinação dos dois mercados, acho que não pode ser um sobre o outro. Acho que a Norte vamos ter de nos expandir para podermos competir com outras academias. Depois temos de escolher mercados-alvo de talento não totalmente explorados. Hoje irmos abrir academias para a América do Sul, onde estão os tubarões todos, que podem pagar muito mais do que nós, não é um modelo que vá explorar. Eu aponto três mercados com combinações interessantes: têm muita população jovem e são mercados onde o futebol está em vias de desenvolvimento, que são os mercados africanos, americano e indiano. Aí sim o Benfica pode fazer a diferença na exploração desses mercados, porque consegue competir. E aí sim, tendo uma escola em modelo de franchising, em que damos a metodologia e a prática de jogo, faz muita diferença no recrutamento, porque hoje aquela rede de olheiros que tínhamos… O Chelsea, o Manchester City e o Real Madrid pagam todos mais do que podemos pagar. O olheiro tem contrato com sete ou oito e nós só ficamos com aquilo que eles não querem ou com aqueles com que eles cometem erros. E essa é a minha última mensagem: o Benfica tem de reter as suas pessoas internamente. E eu proponho duas medidas muito relevantes. Uma tem a ver com o Seixal, que é: quem faça 100 jogos – portanto, treinar a mentalidade dos jogadores para fazerem 100 jogos – no Benfica, depois de ser vendido o valor do mecanismo de solidariedade deve ser dividido pelos funcionários do Seixal. Primeira medida para reter o talento e para garantir que o sucesso desportivo está alinhado com os objetivos do clube. E depois para a nossa equipa de scouting, que é dizer ao contrário: estes 4% do mecanismo de solidariedade são pagos pelos jogadores que sejam comprados por eles e que sejam titulares em pelo menos 50% dos jogos nos primeiros dois anos. Isso é que é sucesso, quando compro um jogador, ele tem de entrar e acrescentar valor à equipa. Se ele acrescentar valor à equipa, merece o prémio, se não acrescentar valor à equipa, não é uma boa contratação. Quer dizer, a gente não pode ter medo de, de forma transparente, assumir quando é ou não é uma boa contratação. Este é o modelo do Liverpool, eles atribuem o prémio ao scouting com base no número de jogos que alguém faz nos primeiros dois anos.

Bola na Rede: Mas aí podemos entroncar naquilo que há pouco deu polémica com Bruno Lage, que o jogador tem de jogar porque custa 20 milhões de euros e é uma questão de mercado. Podemos entrar por aí ou isso depois, se for bem gerido, não será problemático?

Mauro Xavier: Podemos entrar por onde nós quisermos. Temos de ter um treinador que escolha os melhores, não tem a ver com isso. O que eu estou a dizer é que se há um Departamento de Scouting que quero manter, eu tenho de apresentar incentivos para que contratem jogadores que entrem no XI. As balanças de equilíbrio é eu compro os jogadores e o treinador escolhe os melhores. Se o treinador não escolhe os melhores, eu tenho um problema no treinador, que é outra coisa. E não estou a dizer que este é o caso. O que estou a dizer é que nós temos de encontrar um modelo que permita ser diferente dos outros clubes e reter o talento mais tempo, para além do campo. Na indústria e na economia vamos ter de beneficiar todos, porque ela é cada vez mais competitiva e vai desde a pessoa que analisa os dados ao scouting ao preparador físico. Todos eles têm de ter um sistema de incentivos alinhado com o sucesso da equipa.

Bola na Rede: Acima de tudo, é ter as pessoas certas nos lugares certos?

Mauro Xavier: É fácil de dizer e difícil de fazer. Ter as pessoas certas não me diz nada, é preciso ter uma visão. Eu diria que é ter uma visão e encontrar as pessoas com a capacidade para implementar essa visão. Há pessoas que fazem muito bem uma coisa, mas se não estiver alinhada com o objetivo não acrescentam valor. Por isso, aquilo que digo sempre é termos a capacidade de pensar, ambicionar, sonhar e depois executar e garantir que temos métricas para verificar se a execução está de acordo com o que foi dito. E não ter medo de dizer “nesta estou de acordo com o meu plano, nesta não estou ou deixou de ser uma prioridade ou tenho de corrigir”. E é aí que acho que o futebol, embora muito profissionalizado, ainda tem muito a aprender com outras indústrias.