Auspiciosos, porém truculentos, os inícios de relações trazem várias possibilidades. Ver o campeoníssimo Lewis Hamilton, com sete títulos mundiais no bolso, a chegar já com idade para ter juízo à equipa de Fórmula 1 conhecida como ‘a’ Scuderia, porque se convencionou que acima de todas as outras há uma, foi uma história de encantar, capaz de se elevar sobre o contexto de negrume a pairar sobre ambas as partes da história.

Cheio de conquistas, o piloto inglês vinha a decair na Mercedes, a equipa com a qual o seu nome se confundia: a última das suas coroas mundiais surgiu em 2020, no ano seguinte ainda disputou o título, mas, em 2022 e 2023, fechou a temporada sem ser o mais rápido numa corrida que fosse, feito que colecionou duas vezes em 2024, riscando as 103.ª e 104.ª vitórias em Grandes Prémios da sua carreira, abastado recorde de uma lenda que parecia, no entanto, ter a sua luz a esmorecer. Afinal, são já quatro décadas de vida e a carne, como os reflexos, a destreza e o tempo de reação, tendem a enfraquecer.

Mas ele foi para a Ferrari, com o seu cavalinho e o seu vermelho, a equipa mais impregnada na história da Fórmula 1 que disputou todas as edições do mundial, vencedora de 15 títulos de piloto e 16 de construtores, quiçá a única a mover falanges de fãs à futebol, só que também ela decadente: em Maranello não se monta um carro ganhador desde 2007 e o ano seguinte seria o último a devolver uma festa por Il Cavalino Rampante prevalecer por diante de todas as restantes agremiações no paddock.

Mark Thompson

Unidas as luzes aparentemente a findar, o primeiro teste à relação, na semana passada, devolveu um 10.º lugar para Lewis Hamilton no chuvoso Grande Prémio da Austrália, com o cavaleiro britânico sobre rodas a sentir as dores da habituação ao carro e a ficar uma posição atrás de Charles Leclerc, o companheiro de equipa. Em pista molhada, custou aos Ferrari acompanharem a velocidade dos McLaren e dos RedBull, os laranjas e os empoleirados no touro com asas que parecem a postos de serem as presas a caçar em mais uma temporada.

De Melbourne para Xangai, contudo, algo mudou.

Ida a Fórmula 1 para a corrida onde o piloto com mais vitórias é aquele hoje vestido a vermelho, protegido por um capacete amarelo e que se faz acompanhar por um peluche de bulldog quando Roscoe, o seu cão verdadeiro da raça, não está presente, a aura ressurgiu. E esta sexta-feira, Lewis Hamilton acelerou para o primeiro marco de um relacionamento: o inglês conseguiu a pole position para a corrida sprint do Grande Prémio da China.

Ele fez o seu Ferrari ser 0.018 segundos mais rápido do que o RedBull de Max Verstappen, um triz da família das ínfimas diferenças pelas quais a Fórmula 1 se rege no alcatrão. “Não esperava este resultado, mas estou tão feliz e orgulhoso. A corrida anterior foi um desastre para nós. Sabíamos que existia mais performance no carro e ganhou vida desde a primeira volta”, congratulou Hamilton, o piloto que mais corridas ganhou (seis) no circuito de Xangai. O terceiro mais veloz na qualificação foi Oscar Piastri, australiano da McLaren.

Ainda há vida na Ferrari e também persistem os reflexos, as reações, a perícia nas mãos de Lewis Hamilton, que se confessou “um pouco chocado” com a pequena proeza. “Não consigo acreditar que conquistámos a pole position para a sprint. Isto coloca-nos numa boa posição para a corrida. Não sei de onde veio esta volta, tenho de verificar”, disse o algo incrédulo piloto. Assim uma relação teve a sua primeira memória feliz. Veremos se a China proporciona mais: sábado será a corrida ao sprint (3h da madrugada, Sport TV), no domingo acelera-se no Grande Prémio (7h).