A experiência que um árbitro adquire ao longo da carreira não se resume ao ato de arbitrar. Envolve relacionamento direto com os vários agentes desportivos, conhecimento das competições e profunda compreensão de tudo o que rodeia o jogo. Essa vivência, esse saber prático, será sempre uma mais valia importante no exercício de outras funções, defende o antigo árbitro internacional Duarte Gomes

A resposta parece-me óbvia: têm o mesmo direito que qualquer outro agente desportivo ou que qualquer outra pessoa, em igualdade de circunstâncias.
Mas para meu espanto, há quem discorde, talvez por entender que aos ex-árbitros só pode estar reservada carreira dentro do próprio setor.
Não há paciência! É preciso explicar porquê? Vamos lá então.
Quando uma carreira termina, cada qual tem o direito de seguir o rumo que ambiciona, desde que exista oportunidade, competência e claro, respeito pelo processo e pelos restantes envolvidos. Estamos de acordo, certo?
É isso que acontece aliás em todas as áreas de atividade e no futebol também: os jogadores evoluem para técnicos, diretores desportivos, dirigentes ou até empresários; os treinadores podem ocupar cargos diretivos ou presidir a sociedades desportivas; e os presidentes de clubes podem candidatar-se à presidência de outros emblemas ou à liderança de ligas e federações.
Então porque carga de água é que os ex-árbitros não hão-de seguir o caminho que querem?
Reparem. A experiência que um árbitro adquire ao longo da carreira não se resume ao ato de arbitrar. Envolve relacionamento direto com os vários agentes desportivos, conhecimento das competições e profunda compreensão de tudo o que rodeia o jogo. Essa vivência, esse saber prático, será sempre uma mais valia importante no exercício de outras funções.
Além disso, a grande maioria desenvolveu outras habilidades como a capacidade de resolução de conflitos, a contenção em momentos de pressão, a inteligência emocional e a especialização técnica numa missão exposta, com elevado grau de dificuldade. O conjunto de valores que adquirem em campo são imprescindíveis em cargos onde o escrutínio é constante e o trabalho de equipa, a firmeza e a orientação para o objetivo são inegociáveis.
Há ainda a questão da resiliência, da independência, do sentido de justiça, do compromisso, da superação, sempre determinantes noutras tarefas.
Sugerir que os homens do apito deviam ter acesso limitado a outras saídas é tão errado como, por exemplo, afirmar que os jornalistas não podem ser diretores de comunicação em clubes ou comentadores em televisão. Um absurdo.
Os árbitros, sobretudo os que chegaram ao topo, conhecem como poucos as necessidades e dinâmicas dos clubes. Compreendem o que está bem e menos bem. Foram testemunhas ativas na evolução das equipas e dos seus atletas. Muitos arbitraram nos escalões de formação jovens talentos que mais tarde se tornaram referências mundiais.
Já agora, convém lembrar também que a maioria tem formação em áreas que os legitima tecnicamente a ambicionar outros voos.
São motivos de sobra, mais do que terão muitas outras pessoas.
É precisamente por isso que não consigo entender esta resistência, esse veto implícito, o de quem torce o nariz ao assunto, como que condenando o árbitro à eternidade na arbitragem.
Se o problema é achar-se que a sua ascensão pode retirar espaço a outros, estejam descansados: o futebol é muito grande e dá para todos.
Convém é provarem que têm experiência prática, mérito profissional, competência técnica, idoneidade e já agora... cadastro limpo.
Nos dias que correm, dá jeito.